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Mês de São Francisco de Assis e o Serviço á Comunidade de irmãos em Pouso Alegre

São Francisco é um exemplo de amor e serviço a Deus explicado pelo Reverendo Frei e Padre Neilo Machado durante uma entrevista

Serviço e amor são características marcantes de São Francisco de Assis. A Fraternidade Católica Franciscana Filhos de Assis comemorou em 04 de outubro, a memória do Santo que renunciou a sua riqueza para seguir a Santa Vontade de Deus.

Giovanni di Pietro di Bernardone, mais conhecido como São Francisco de Assis, foi um frade católico que nasceu em 1182 na cidade de Assis, Itália. Na sua juventude era uma pessoa vaidosa e orgulhosa, além de ser dono de muitas posses. No seu devido tempo foi à guerra como cavaleiro, mas durante o seu serviço na cavalaria que servia ficou doente. Em sua doença, ouviu uma Voz no qual dizia “Servir ao amor e ao servo”. A partir daquele momento, começou a sua decisão por Deus.

São Francisco é exemplo hoje de amor incondicional ao próximo. Uma vez, ao se deparar com um leproso, venceu sua repulsa natural por meio do Espírito Santo e beijou-lhe. Desde esse dia em diante, passou a servir e dedicar-se aos doentes nos hospitais, voltou seu olhar aos pobres com suas roupas e dinheiro.

Tempos depois, recebeu uma ordem de Jesus Cristo: “Vai e restaura a minha igreja, que está em ruínas”, na igrejinha de São Damião. Vendeu tudo que tinha, renunciou a herança do pai e foi atender a aquele chamado espiritual, começava ai o seu serviço à comunidade de irmãos. No princípio da sua conversão, ele peregrinou por Roma e viveu na solidão se tornando um eremita. E, aos poucos, foi reestruturando a igreja de São Damião, com uma pequena diferença que se tornou grande, pois a restaurou com o seu modelo de vida, com fé e obediência ao Senhor.

A santidade de São Francisco de Assis e suas pregações alcançaram muitos discípulos, principalmente da jovem Clara de Assis, que era nascida em família nobre. Ele se tornou um pai espiritual para ela e para os outros discípulos. Assim nasceu a Ordem Segunda dos Franciscanos e das Clarissas, que até hoje tem muitos seguidores pelo mundo.

São Francisco e o amor à missão

“O que é a vida de São Francisco, convertido, senão um grande ato de amor?”. Estamos diante de um santo como São Francisco, que mundialmente e por várias gerações, sempre despertou em vários jovens uma atração e fascinação a pessoa de Cristo. Mas como é possível vencer o transcurso dos anos e a diversidade cultural, tornando-se, assim, viva e atrativa a sua memória entre os homens? Sim, é o belíssimo testemunho de São Francisco que atraiu, atrai e atrairá muitos homens e mulheres, de todas as idades e culturas, a uma profissão de amor a Jesus Cristo, que se resume a um convite: O amor não é amado, por isso vamos amar o amor!

Assim, São Francisco de Assis, com a sua conversão, representa não só um marco para a sua vida pessoal, mas também um marco para a Igreja Veterocatólica Missionária a qual faço parte na atualidade e para toda a nossa Prelazia Pessoal. Pois o que pretendo mostrar em minha entrevista concedida na época, realizada atendendo um pedido do Frei Rogério Cruzantonio que era, nosso líder vocacional, é que: Viver em comunidade é buscar o comum: corpo, Espírito, esperança, Senhor, fé, batismo, Deus, Pai.

1 – E o que fez da conversão de São Francisco um marco para a história da humanidade?

Frei Neilo: Simplesmente a sua missão do início ao fim de sua vida foi voltada justamente para a comunidade da qual se prestou a servir, pois a sua conversão lançou Francisco a um “lançar-se” totalmente ao serviço de Deus: “Vai Francisco, reconstrói a minha casa!”

“Busca da paz, o salva guarda da natureza, o promotor do diálogo entre todos os homens fez com que sua comunidade crescesse, germinasse e desse frutos. Francisco é um verdadeiro mestre em tudo isto e trocou os bens materiais pelos bens espirituais. Mas o é a partir de Cristo – declarou – “Cristo é, de fato, ‘nossa paz’. Cristo é o próprio princípio do cosmos, pois nEle tudo foi feito”. São os grandes temas atuais que ainda hoje recebem grande influência da missão de São Francisco.

2 – Mas afinal, por que o alcance da missão de São Francisco foi tão amplamente abrangente?

Frei Neilo: Foi pelo fato da sua grandiosa experiência do amor de Deus que o fez assim responder, sob ação da graça de Deus, aos grandes questionamentos dos homens: Por que sofremos? Por que vivemos? De onde vem o mau? Como vencer o pecado? Como amar a Deus e aos irmãos? Como alcançar a paz? Qual é a verdadeira riqueza? Como ser obediente? Como ser puro de coração? Como servir a comunidade de irmãos e vivenciar a sua fraternidade entre eles.

São tantas perguntas que brotam no coração do homem, mas que em São Francisco, foram transformadas em gestos de amor, por meio de uma vida convertida a Jesus Cristo. Enfim, é o seguimento a Jesus Cristo que faz do homem um ser pleno, e em São Francisco observamos um grande testemunho de radicalidade evangélica.

“Servir aos leprosos até beijá-lo não foi só um gesto de filantropia, uma conversão, por assim dizer, ‘social’, mas uma autêntica experiência religiosa, ordenada por iniciativa da graça e do amor de Deus”. Em nossas vidas, podemos também ser um testemunho vivo de superação na nossa missão no qual Deus no confiou. Por isso, é importante, a exemplo de São Francisco, saber disso: Deus nos fez para amar, em vista de uma missão e para nos ofertarmos a Deus, de forma livre e responsável. Só assim poderemos unir e tornar pleno o sentido dessas duas palavras: AMOR E MISSÃO.

Parte da Graça de Deus, pois a conversão de São Francisco não é meramente um voluntarismo, mas sim, primeiramente e completamente, um olhar de amor de Deus ao homem, para que assim, sob ação da graça, o homem reconheça Deus como centro da sua vida, e se torne obediente ao apelo de Deus: Amor e Missão. Portanto entendo eu, que ser franciscano é seguir os exemplos deixados por Francisco, não podemos ser uma comunidade, se de fato não tivermos como objetivo principal, a união de irmãos, como irmãos, para que a comunidade que pretendemos firmar-se, seja de fato um alicerce sólido, baseados nos exemplos deixados por Francisco.

“Era missão que começava com a plena conversão de seu coração para converter-se depois em fermento evangélico espalhado nas mãos cheias na Igreja e na sociedade”. Enfim, São Francisco ensina-nos o marco inicial da sua missão: O encontro pessoal com o Cristo Ressuscitado que passou pela cruz! Nesse encontro foi gerada uma conversão em vista de uma missão. Por isso, devemos unirmos ao louvor seráfico de São Francisco, como cumprimento pleno da vontade de Deus para nossas vidas: sede santos! Para amar a Deus e aos homens dentro de uma missão no qual Deus nos está confiando. Eu não quero ser frade, apenas para ter um título religioso, eu quero ser primeiramente religioso para me sentir que tenho vocação para ser frade.

Quando falamos em comunidade de irmãos, os meus pensamentos vão além do que se propõe a ideia de termos sido aceitos nesta fraternidade. Nova, com pouco menos de sete anos, e da qual somos os pioneiros. Primeiro pelo Arcebispo Primaz Frei Dom Sebastião Costa de Lima, Guardião da Fraternidade Reformada Anglicana dos Filhos de Assis e depois pelo Irmão Frei Rogério Cruzantonio que tem com muito carinho e presteza, apesar das suas limitações, feito mais do que pode para que essa comunidade iniciada no Sul de Minas, pudesse florescer e dar bons frutos no futuro.

Que possamos, unidos à graça de Cristo, louvar a Deus por tudo que Ele realiza em nossas vidas, e pela nossa missão da qual ainda estamos engatinhando, pedindo a Deus um renovar e um aprofundar na dimensão de sermos missionários, pela graça do nosso batismo e do amor de Deus que nos foi derramado pelo Espírito Santo em nossos corações!

3 – O Senhor já parou para pensar na responsabilidade desta vocação como Franciscano?

Sim e muito! Eu já parei para pensar na responsabilidade que tal vocação vai exigir da minha pessoa doravante. Do comprometimento da qual a minha vida, a de um mero jornalista, conceituado, perdoem me a modéstia, irá enfrentar na missão da qual estamos e estou me jogando de corpo e alma, apesar da idade. A caminhada franciscana, entendo eu, e me perdoem se estiver errado, enquanto serviço, deve ser pautada pelo Evangelho nas dimensões concretas da vida, porque sempre viveremos em comunidade. Deve haver uma estreita relação entre as realidades da Palavra e do cotidiano.

Em todo o seu peregrinar, São Francisco e Santa Clara de Assis harmonizaram muito bem essas dimensões para chegar até os dias de hoje, da qual, não é o Bispo Dom Sebastião e nem tão pouco Frei Rogério, mas a vontade de Deus que nos reuniu no amor de Cristo, para servir.

E daqui para frente será impossível separar o Evangelho da vida e vice-versa. Portanto, quando falamos de serviço evangélico e de fraternidade evangélica precisamos ter diante de nós, franciscanos e franciscanas, a compreensão de que estamos servindo a Jesus Cristo (Evangelho do Pai) e à Fraternidade, que abrange a comunidade de irmãos e irmãs, a igreja-povo de Deus (eclésia), a sociedade humana e a ecologia (a harmonia entre as pessoas e todas as criaturas) devem serem vistas como irmãos, como um dia enxergou Francisco.

Para nós iniciadores do Movimento Franciscano aqui no Sul de Minas, o compromisso assumido e que estamos assumindo significa não descansar nunca nem se acomodar frente aos desafios e apelos concretos da existência humana. Entretanto, que possamos encontrar no seio da Fraternidade Franciscana, filhos de Assis um trabalho conjunto entre eu e o futuro frei Simeão Pereira de Lima, seja a de ontem e a de hoje, quem achar mais fácil servir ao Evangelho como algo maravilhoso e bonito, aquilo que agrada e é suave, sem amargor e dificuldades pode dizer que começa a entender o que será viver a comunidade de irmãos da qual nos candidatamos.

Para São Francisco, o amargo se lhe transformou em doçura, pois aprendera a encarar as mazelas da vida com muita coragem e discernimento. É neste sentido que São Francisco se posicionava tenazmente contrário ao irmão que não assumia a própria vocação de frade menor. A quem agia desse modo, ele dava o apelido de “irmão mosca”, porque, como tal, não contribuía com nada e só queria se beneficiar das coisas da Fraternidade de outros. Se queremos viver uma comunidade religiosa de irmãos, precisamos educar-nos e vivermos uma vida de respeito, conjunta, fraterna, de carinhos, de elogios, de bondade, de amor ao próximo, para sermos irmãos em Cristo Jesus.

As vezes surto, quando deveria ter paciência de entender que as pessoas não são iguais umas das outras, não é o nosso passado que está em questão, mas o nosso comportamento impar, daqui para frente. Até aqui eu era apenas o jornalista Neilo Machado com seus defeitos e virtudes, e as minhas virtudes hoje encobrem os meus defeitos, tem que encobrir! Jesus disse, quando condenavam uma prostituta a morrer apedrejada: “Atirem a primeira pedra, quem nunca tenha pecado!”

Acredito eu que servir ao Evangelho de Jesus Cristo e servir ao irmão e à fraternidade precisamos aprender a viver em comunidade como irmãos. Ninguém realizada nada isoladamente, então hoje somos três, eu, Simeão e Antonio Vasconcelos pleiteando ingresso como seminaristas nesta fraternidade, para juntos amar como Francisco amou.

4 – Como o Senhor vê o seu serviço a serviço do Evangelho de Jesus Cristo nesta missão evangelizadora?

Frei Neilo: Os franciscanos e as franciscanas entendo eu se caracterizam por uma peculiar experiência vivencial e concreta do Evangelho, seja em nível de serviço dentro da fraternidade ou em nível de serviço fora dela, procurando assim responder aos diversos contextos do mundo e as diversas necessidades pessoais de cada um do povo de Deus. Foi desse modo que os fundadores da Família Franciscana entendem, assimilam e praticam profundamente a proposta de Jesus Cristo da qual queremos fazer parte. Cada aspecto da vida de São Francisco reflete a capacidade que temos de ir além das letras e das palavras escritas. Podemos lembrar, por exemplo, a superação de Santo Pai quanto ao “nojo” de leprosos. Da Mãe Clara, recordamos a ousadia que teve de abandonar as comodidades familiares e fugir de casa pela “porta dos mortos” . Foi dessa maneira que os dois se deixaram contagiar por Jesus Cristo e, nesse entusiasmo, encantaram muita gente. E oxalá esteja de fato contagiando cada um de nós em especial para nos colocarmos nesta nobre missão evangelizadora de compromisso com o povo de Deus.

5 – Como o Senhor vê a regra franciscana? Como observa o Evangelho de Jesus Cristo pela ótica de Francisco?

Frei Neilo: Sabemos muito bem e vale a pena acentuar, que as Regras de São Francisco e da Ordem Franciscana Secular têm como núcleo o Evangelho de Jesus Cristo com suas reais consequências para a vida cotidiana, seja na dimensão religiosa ou leiga. Embora canonizadas, isto é, reconhecidas pela Igreja, essas regras não podem ser vistas e tomadas como normas jurídicas em si, mas como um conjunto de princípios vitais que dão sentido à vocação de cada pessoa inspirada a abraçar o ideal de vida franciscano.

A Regra não Bulada (1221) de São Francisco, em duas passagens, enfatiza o conteúdo da vocação evangélica dos frades com os seguintes termos: “Esta é a vida do Evangelho de Jesus Cristo, que Frei Francisco pediu que lhe fosse concedida e confirmada pelo senhor Papa. E ele o concedeu e confirmou para si e seus irmãos, presentes e futuros.”. E continua mais adiante: “A regra e vida destes irmãos é esta, a saber, viver em obediência, e até em castidade e sem nada de próprio, e seguir a doutrina e as pegadas de nosso Senhor Jesus Cristo em comunidade…”.

Por sua vez, de forma mais sintética, a Regra Bulada retoma e reitera o mesmo teor evangélico da regra anterior: “A Regra e a vida dos Frades é esta: observar o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem nada de próprio e muitos em castidade.” Santa Clara, fiel companheira do Santo de Assis, introduziu em sua Regra, aprovada depois de muitas lutas em 1253, o mesmo propósito evangélico aos frades: “A forma de vida da Ordem das Irmãs Pobres, que o bem-aventurado Francisco instituiu, é esta: observar o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem nada de próprio e em castidade.”

A Regra da Ordem Franciscana, após referir-se sobre a pertença desse ramo à Família Franciscana da qual estamos almejando entrar, afirma que os irmãos e as irmãs estão comprometidos pela Profissão, a partir da convivência fraterna, a viver o Evangelho, espelhando-se na experiência do Seráfico Pai: “Nelas [nas fraternidades], os irmãos e as irmãs, impulsionados pelo Espírito a atingir a perfeição da caridade no próprio estado, são empenhados pela Profissão a viver o Evangelho à maneira de São Francisco e mediante esta Regra confirmada pela Igreja.”

“A Regra e a vida dos franciscanos deve ser esta: observar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo o exemplo de São Francisco de Assis, que fez do Cristo o inspirador e o centro da sua vida com Deus e com os homens.” Todavia, conforme o mesmo texto, essa proposta só será eficaz a partir do momento que se realizar a passagem do “Evangelho à vida e da vida ao Evangelho”.

Esse termo, aqui empregado, não é simplesmente uma questão de olhar ou prestar atenção em algo que foi feito ou se faz, como se viveu ou se vive quando o pensamento é vivenciar a experiência de uma comunidade de irmãos que se pretenda alcançar com algum objetivo nesta Família Franciscana. Expressa, sobretudo, envolvimento e participação nos acontecimentos atuais. E mais, tem a acepção de colocar em prática aquilo que é inerente à identidade do projeto que uma pessoa ou um grupo abraçou. Em outras palavras, na ótica franciscana, observar implica seguimento de uma proposta de vida, obediência a princípios fundamentais, vivência de valores essenciais, comprometimento com as situações concretas da comunidade, inserção no mundo e serviço à vida dos seres humanos e de todas as criaturas através do anúncio de Jesus Cristo e pelo testemunho do amor fraterno que deve existir principalmente entre os irmãos.

Nesta dimensão da observância do Evangelho, tão fundamental para São Francisco e Santa Clara e todos que pretendem abraçar esta causa, cada franciscano, subjetiva e objetivamente, terá uma definição plausível da vocação e da caminhada quando projetar essas necessidades de se viver em comunidade no horizonte da experiência e vivência profundas dos valores que significam o jeito de ser e agir, aqui e agora, no chão da história que ajudaremos a construir em nossa cidade.

6 – Então há de fato um proposito a serviço dos irmãos e da Fraternidade para um futuro próximo?

Frei Neilo: Não há fraternidade sem irmãos e tampouco estes sem aquela ou aquele! Ambos são indispensáveis para que o serviço ao Evangelho seja eficazmente situado. Tanto São Francisco, como Santa Clara, apreenderam o verdadeiro sentido da fraternidade e, principalmente, aprenderam a ser irmão e irmã na relação fraterna e no empenho das obrigações cotidianas com outros, caminhando juntos, paralelamente. O itinerário dos dois compreendia as diferentes dimensões da vida religiosa: oração, formação, relação fraterna, trabalho manual, cuidado dos irmãos e irmãs sadios e doentes, comunhão eclesial, missão, etc . Assim, a fraternidade primitiva franciscana pode ser vista e entendida sob vários ângulos: reconhecimento e valorização das qualidades uns dos outros, intensidade das relações afetivas, interesse e cuidado uns com os outros, disponibilidade para os trabalhos internos e externos e, naturalmente, enfrentamento de desafios e dificuldades. Tudo depende de união fraterna e o futuro a Deus pertence, temos perspectivas de trabalho e fé na sua realização, o tempo será nosso principal aliado para atingirmos nossos ideais.

7 – O Senhor pretende criar uma “fraternidade perfeita” em Pouso Alegre?

De modo absoluto Não! E aqui coloco a minha opinião, pessoal, não há nenhuma sociedade humana perfeita neste nosso mundo, terminada e pronta, de forma que não necessite mais de mudanças e renovação no tempo e no espaço. O que existe, de fato, é um processo dinâmico, porque o ser humano caminha e se transforma no curso da história aos poucos, da qual ele é o protagonista. Neste mesmo sentido, a primitiva fraternidade de Francisco estava em vias de construção paulatina. Quem ingressava nela tinha a grave tarefa de fazer parte desse processo de crescimento.

A fraternidade franciscana estava (e está) no rumo da perfeição, mas ainda muito longe de alcança-la. São Francisco tinha uma visão muito nítida das capacidades de cada um dos seus companheiros. Acolhia indistintamente a todos como “dom” de Deus e com eles queria fazer a singular experiência evangélica. Da mesma forma penso eu, sozinho ninguém constrói nada. A União de todos é o primeiro passo a ser dado para a concretização deste sonho.

Nessa atmosfera, o Santo de Assis havia aprendido que a “fraternidade perfeita” correspondia à soma qualitativa dos dons e virtudes dos irmãos. Assim, depois de uma percepção profunda dos próprios valores, destacou de cada um deles os aspectos de significativa importância para o amadurecimento pessoal e fraterno.

Bem, pelos meus pensamentos e colocando sempre a minha opinião em destaque creio que o frade tem seu valor não pelo número de qualidades que possui, mas pela relevância da virtude dele, mesmo que seja só uma. Além disso, o elencamento dos dons aponta para dimensões específicas da vocação franciscana: seguimento de Jesus Cristo, vida de oração, contemplação, pobreza, simplicidade, cortesia (gentileza e acolhida), paciência, piedade, caridade fraterna, dom da pregação (eloquência), itinerância (inquietação) amor ao próximo e bondade, preocupado sempre em unir-se para o seu crescimento pessoal e ao grupo que pretenda criar. Não seja uma pessoa maldizente, que perdoa os que o ofendem, pois foi sangrando numa cruz a lição que nos deixou Jesus. A fraternidade é servida no compartilhamento dos talentos de todos e se expande no serviço ao Reino através dos dons colocados em prática. Mas para isso é preciso haver respeito entre seus membros, obedecer a hierarquia de seus superiores e aprender a viver em comunidade, se houver um desejo sublime que ela cresça com o seu trabalho em prol de todos, nunca isoladamente.

8 – O Senhor então acredita numa Fraternidade com relações afetivas sinceras entre todos?

Frei Neilo: Claro! O que mais me chamou a atenção nas primeiras gerações franciscanas foi a forma como se dava o cultivo das relações fraternas. Conforme Tomás de Celano, quando se encontravam, em algum lugar, para celebrar momentos importantes, por ocasião ou por outras razões, os frades tratavam-se de forma calorosa. Os irmãos se portavam do mesmo jeito ad intra e ad extra, isto é, agiam igualmente dentro e fora da fraternidade (espaço físico) com o mesmo carinho e apreço uns pelos outros. Esse modo de relacionar-se deixava impressões positivas no meio do povo, que passava a estimar e admirar os frades. Não havia fofocas, nem disse que me disse. Um respeitava o outro, e morriam-se se preciso fossem, em defesa de seus confrades irmãos em Cristo. Não consigo ver uma comunidade franciscana crescendo, se não houver amor e respeito entre seus confrades. Se não sabemos perdoar a ofensa de nosso irmãos de hábitos e vestimentas, como iremos perdoar terceiros irmãos das quais pretendemos auxiliar? Se não houver dignidade e respeito entre seus membros, como construir uma comunidade de irmãos fraternos?.

Quem conhece a historia de Francisco sabe que: “Quando se reuniam em algum lugar, ou quando se encontravam na estrada, reacendia-se o fogo do amor espiritual, espargindo suas sementes de amizade verdadeira sobre todo o amor. E como? Com castos abraços, com terno afeto, com ósculos santos, uma conversa amiga, sorrisos modestos, semblante alegre, olhar simples, ânimo suplicante, língua moderada, respostas afáveis, o mesmo desejo, pronto obséquio e disponibilidade incansável para servir.”…“Todos os dias eram solícitos para rezar e trabalhar com as próprias mãos para afastar absolutamente toda ociosidade, inimiga da alma… Amavam-se com entranhado amor e cada qual servia e nutria o outro como uma mãe com seu filho único e dileto. ”.

Por fim, o texto, do Anônimo Perusino, chama a atenção para o impacto que o testemunho de vida dos irmãos provocava no meio do povo: “O povo, vendo-os serenos em meio aos sofrimentos aceitos pacientemente pelo Senhor, e sempre esforçados para rezar com devoção, recusando receber e ter consigo dinheiro, como o faziam os outros pobres, e eles querendo bem um ao outro, sinal de que eram discípulos de Cristo: muitos ficaram comovidos e arrependidos, e foram pedir-lhes desculpas pelos maus tratos… Alguns até acabavam pedindo para serem recebidos em seu grupo…”.

Acredito eu que o amor caritativo é aquele amor fraterno desinteressado, isto é, aquela expressão de compaixão incondicional que se dobra diante das necessidades do próximo. Ademais, significa um modo informal, espontâneo e gratuito, sempre disponível para ajudar e servir o outro sem medir esforços ou impor barreiras. Trata-se de uma experiência vital que transcende os limites pessoais, sociais, religiosos e culturais. Jesus nos ensina que se alguém nos obrigar a andar cem metros, que andemos um quilometro, se nos pedirem as sandálias que demos também a túnica, sempre haverá exploradores, lobos entre as ovelhas de Deus, e destas pessoas temos que orar, termos misericórdia, porque nem todos que dizem Senhor! Senhor! entrarão no Reino de Deus. Sem dúvida, é algo que revela também a capacidade que o ser humano tem de sair de si mesmo e ir ao encontro do semelhante servindo e apiedando-se de tais criaturas.

A espiritualidade franciscana está marcada profundamente por esse amor entranhado. As Fontes Franciscanas e, de forma mais direta, os Escritos de São Francisco, sublinham, com relevância, a experiência desse amor serviço caritativo. O Santo de Assis, durante a sua vida, soube cuidar do irmão sem reservas ou medo de perder alguma coisa. Foi alguém todo comprometido com a caminhada pessoal, vocacional e espiritual dos seus companheiros (irmãos).

De igual modo, todos os irmãos eram educados a manifestar uns aos outros as próprias necessidades e a ter aquele amor sincero e prestativo de mãe pelo confrade em todas as circunstâncias da vida. Portanto, acredito que estas orientações aqui colocadas, quando posta em prática, fortalece os vínculos fraternos, estimula a nossa convivência nas diferenças e sustenta, hoje também, os passos que desejamos dar como futuros franciscanos.

9 – Como o Senhor em sua vocação descobriu os aspectos que o levaram a compreender a vida simples de São Francisco?

Frei Neilo: Quando olhei, estudei e senti de perto as situações concretas da primitiva fraternidade franciscana, descobri muitos outros aspectos que nos levam a compreender a dinâmica de vida de São Francisco e seus companheiros. Mas, outro elemento caro ao Santo Pai era a questão do trabalho. Este era (e ainda é hoje) um meio pelo qual o irmão dava significado ao seu sentido de pertencer à fraternidade e colaborava com o seu suor para o bem de todos.

Ele, o próprio Poverello, dava testemunho com o trabalho manual que fazia e queria realizar em todo tempo, pois tinha-o como graça recebida de Deus: “Os irmãos a quem o Senhor deu a graça de trabalhar, trabalhem fiel e devotamente”. É nesse entendimento que Insistia para que todos os frades trabalhassem e se não soubessem, procurassem aprender, não por interesses particulares, mas para descruzar os braços e fugir das acomodações.

Além do mais, sob essa ótica, pelo trabalho e como assalariados, os frades davam testemunho do estilo de vida que haviam assumido e, através desse instrumento de subsistência, podiam exercer sua missão de evangelizadores. Sendo assim, o trabalho adquiria um significado mais amplo, isto é, não visava apenas o provimento das necessidades básicas, mas também o anúncio do Reino de Deus e sua justiça.

Ao decidir tornar-me Padre e Frei percebi que a caminhada é um processo de crescimento, discernimento e amadurecimento da pessoa frente às escolhas e opções que faz e abraça. No seio da fraternidade franciscana, cada irmão é conduzido a ter clareza da vocação para observar o Evangelho. Francisco de Assis considerava indispensáveis o esforço e a austeridade pessoais para se levar adiante o propósito de vida.

É partindo daí, que o Santo Irmão de Assis chamava a atenção do irmão que não assumia nem se comprometia com os desafios do dia a dia a fraternidade local (e também em sentido mais amplo) a que pertencia. Entretanto, por outro lado, esse tal irmão queria ser bem servido com os frutos do suor dos companheiros. São Francisco denominava-o fraternalmente de “irmão mosca” conforme já mencionamos anteriormente durante esta explanação (fraternalmente porque não chamava-o simplesmente de mosca, mas de irmão mosca). Será que há um irmão mosca entre nós que não deseja compartilhar dos esforços do próprio irmão nesta caminhada?

Em segundo lugar, temos a constatação de um caso nada animador para São Francisco e, certamente, para todo o grupo. E este que era “ninguém” para o trabalho, “valia” por muitos na hora das refeições: “Havia em certo lugar um frade que não era ninguém na hora de esmolar mas valia por vários na hora de comer.”

Por fim, descartamos a figura do “irmão mosca” e vamos a obra na construção de uma comunidade mais fraterna se nos unirmos em consideração e respeito um com o outro, colaborando de todas as formas possíveis para que a mesma possa alavancar outros frades e a fraternidade Filhos de Assis crescer como desejamos.

A reação do Seráfico admoestou e desaprovou o comportamento desse frade que não desejava colaborar e o rumo tomado por aquele irmão, que, como acentua o texto, saiu da fraternidade e continuou sendo “ninguém”: “Vendo que era comilão, participava dos frutos mas não do trabalho, disse-lhe uma vez: `Segue teu caminho, irmão mosca, porque queres comer o suor de teus irmãos e ficar ocioso no trabalho de Deus. Pareces com o irmão zângão, que não ajuda as abelhas a trabalhar, mas quer comer o mel por primeiro`. Quando esse homem carnal viu que sua atitude de colaboração um com o outro tinha sido descoberta, voltou para o mundo, que nunca tinha deixado. Saiu da Ordem: já não era frade nenhum, ele que nunca tinha sido ninguém para esmolar.”.

Notamos, então, nesta ocasião, a conduta desaprovável desse frade, que faltava com o dia a dia da fraternidade. As suas atitudes eram contrárias à identidade do autêntico frade. A exortação e o discernimento de São Francisco visavam, sem dúvida, preservar o espírito de colaboração mútua e reforçar o sentido de pertencer à fraternidade, que exigia dos irmãos da comunidade a mesma dedicação e que um colaborasse com o outro de igual maneira, no trabalho, no lazer e principalmente no esforço mutuo que vivessem o mesmo ideal de perseverança.

10 – Muito bem irmão Neilo suas considerações finais?

Frei Neilo: O Evangelho é a força vital que ontem deu sentido à vocação de São Francisco e hoje dinamiza e revigora a própria essência do Carisma Franciscano para se viver em comunidade como irmãos. A observância dos princípios e valores por parte dos irmãos franciscanos significa manter viva a chama do propósito assumido e que um saiba o significado real da palavra companheirismo se quisermos que essa comunidade de irmãos, que hora estamos alimentando, cressa de modo satisfatório conforme a vontade de Deus quando nos chamou para tal ofício.

Como vimos nesta entrevista humildemente apresentada por mim, a vida fraterna em comunidade compreende um conjunto de componentes ou forças que solidificam a caminhada pessoal e comunitária. Os membros da Família Franciscana são os personagens principais para a construção da Fraternidade, em sentido mais amplo, sem fronteiras, aqui e agora. Para tanto, faz-se necessária a participação, o compromisso e a colaboração de cada um de nós que pretende abraçar a causa franciscana e de todos nós juntos para a eficácia do “projeto de vida franciscano” que é o de servir ao Evangelho e à Fraternidade, como bem entendeu e viveu o Pobrezinho de Assis, quando disse: “Como sou servo de todos, a todos estou obrigado a servir e a prestar-lhes em serviço as odorosas palavras de meu Senhor”.

De tudo isso, podemos afirmar que a fidelidade ao Evangelho ou à forma vitae (forma de vida) alcançará a sua significação à medida que formos contemplados com os diversos passos e componentes que caracterizam a fisionomia do itinerário que devemos seguir para alcançar o os objetivos que desejamos como irmãos franciscanos. Aqueles aspectos que conhecemos – relações fraterno afetivas, formação, oração, trabalho, humildade e serviço, missão e evangelização, companheirismo, responsabilidade com a vida dos irmãos noviciados, do ser humano e das criaturas e outros – são exigências fundamentais que garantem a permanência nossa na atuação e na itinerância dos franciscanos de todos os tempos e em todos os lugares que desejamos chegar.

Ao encerrar minhas palavras, partindo em missão de paz e bem, seguindo com perfeita alegria o Cristo pobre, casto e obediente recordo de Francisco Santo na última etapa de sua vida, quando recebeu no Monte Alverne os estigmas de Cristo, em 1224. Já enfraquecido por tanta penitência e cego por chorar pelo amor que não é amado, São Francisco de Assis, na igreja de São Damião que ele reergueu, encontra-se rodeado pelos seus filhos espirituais e assim, recita ao mundo o cântico das criaturas.

O seráfico pai, São Francisco de Assis, retira-se então para a Porciúncula sua santa da devoção, onde morre deitado nas humildes cinzas a 4 de outubro de 1226. Passados dois anos incompletos, a 16 de julho de 1228, o Pobrezinho Filho de Assis era canonizado por Gregório IX. Francisco nunca mediu despesas, aquela voz ecoa a nós até o dia de hoje; Rogério, Simeão, Vasconcelos e José Neilo “quem te pode fazer mais bem, o Senhor ou o servo?” Francisco compreendeu, voltou sobre seus passos, abandonou definitivamente a alegre companhia e, enquanto estava absorto em oração na igreja de São Damião, ouviu claramente o apelo: “Francisco, vai e repara a minha Igreja que, como vês, está toda em ruínas”.

A mesma voz temos que nos esforçar para ouvir: Meus filhos vão e reparem a minha igreja que, como estão vendo, se encontra novamente em ruínas. Aquele jovem não fez delongas e, diante do bispo Guido — a cuja presença o pai o conduzira à força para fazê-lo desistir —, despojou-se de todas as roupas e as restituiu ao pai. Improvisou-se em pedreiro e restaurou do melhor modo possível três igrejinhas rurais, entre as quais Santa Maria dos Anjos, dita Porciúncula. Uma frase iluminante do Evangelho indicou-lhe o caminho a seguir: “Ide e pregai… Curai os enfermos… Não leveis alforje, nem duas túnicas, nem sapatos, nem bastão, e hoje eu entendo as palavras do Frei Rogério quando me disse apenas uma túnica irmão frei José Neilo, apenas uma”.

Na primavera de 1208, 11 pessoas tinham-se unido a ele. Escreveu a primeira regra da Ordem dos Frades Menores, aprovada oralmente pelo papa Inocêncio III, depois que os 12 foram recebidos em audiência, em meio ao estupor e à indignação da cúria pontifícia diante daqueles jovens descalços e mal vestidos. Um ano depois, na solidão do monte Alverne, Francisco recebeu o selo da Paixão de Cristo, com os estigmas impressos em seus membros. Depois, ao aproximar-se da “irmã Morte”, improvisou seu “Cântico ao irmão Sol”, como hino conclusivo da pregação de seus frades. Por fim, pediu para ser levado à sua Porciúncula e deposto sobre a terra nua, onde se extinguiu cantando o salmo “Voce mea”, nas vésperas em 3 de outubro.

A Igreja uma comunidade de irmãos (Ef 4:1-6)

O apóstolo Paulo fala de um lugar onde os irmãos são humildes, dóceis, pacientes, que se suportam uns aos outros, que se esforçam para manter a unidade pelo vínculo da paz estabelecida por Jesus (todos temos paz com Deus e para isso precisamos estar bem). Talvez por isso São Francisco se identifica pelo sinal de cumprimento dizendo uns aos outros: Paz e Bem.

Eu particularmente, depois de estar a frente de um grupo da Renovação Carismática, espiritualista, solidário e ter vivido por mais de 30 anos uma catequese voltada a “Renovação Carismática” para a minha comunidade entendo que esse lugar é a igreja. Tudo isso porque há um só corpo, um só Espírito, uma só esperança, um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e um só Pai de todos, por meio de todos e em todos.

Esse lugar é uma comunidade de irmãos, não uma instituição religiosa e muito menos uma empresa religiosa. Essa comunidade de irmãos para nós hoje representa esta Prelazia que ora estamos caminhando e dela fazemos parte. O nosso grande desafio é sermos uma comunidade em uma cultura de individualidade. Tudo em nossa cultura nos incentiva a individualidade e não a comunidade. No dia 02 de fevereiro de 2020 pela imposição das mãos santas de Dom Sebastião Costa de Lima, tornei-me além de frade, padre com a promessa de me fazer bispo anos depois. Infelizmente, a Covid 19 nos ceifou sonhos, levou valorosos irmãos, inclusive Dom Sebastião que não resistiu os efeitos da pandemia e foi morar com Deus. Mas deixou-nos um legado: “Viver em comunidade é buscar o comum: corpo, Espírito, esperança, Senhor, fé, batismo, Deus, Pai”.

Ao encerrar aqui minha participação nesta entrevista gostaria de acrescentar que as  pessoas hoje não ficam na igreja pelos relacionamentos, mas sim pelo programa, pelo louvor. Quando o que oferecem não os satisfazem mais, saem. Eu posso dizer isso com toda convicção porque vivenciei isso em meu grupo de oração. Hoje faço com muito orgulho parte da IVCM – Igreja Veterocatólica Missionária. É tempo de estabelecermos vínculos fortes. Como o faremos sem estar juntos? Sem nos conhecermos melhor? Por isso minha casa em Pouso Alegre/MG está aberta a todo o clero missionários que quiserem se aventurar em prol da nossa igreja. Sem nos amarmos verdadeiramente. Sem um colaborar mutuamente a serviço com o outro. Se não houver respeito e companheirismo entre nós postulantes de um sacerdócio maior que irá nos aproximar mais de Deus, em prol dos mais necessitados.

NR: A Prelazia Nossa Senhora das Dores assim como a Fraternidade Católica Apostólica Anglicana Filhos de Assis será um dia dissolvida para dar lugar a uma Diocese do Estado de Minas Gerais conforme vontade do nosso Patriarca Dom José Fernando de Faria, arcebispo primaz e guardião desta Instituição Religiosa. Não conseguiremos sendo líderes, Bispos, Reverendos, Padres, diáconos ou religiosos. Conseguiremos sendo irmãos, edificando e sendo edificados. Reconstruindo como fez Francisco. Que sejamos firmes nesta Igreja que nos apoiou e nos recebeu de braços abertos.

Só para encerrar mesmo:- Às vezes, achamos alguns pedidos a nós formulados um pouco cara, diante da realidade da vida e quanto já sofremos para sobreviver na fé, para alcançarmos a graça prometida por Deus. Quando casou meu último filho, achei que o mundo iria acabar, pois que não entendia que precisamos muitas vezes renunciar a muitas coisas que gostamos e queremos na vida, quando na verdade ela é tão preciosa que mesmo sabendo que, nem com todo dinheiro do mundo podemos pagar, Deus nos doa de graça tudo aquilo que desejamos, a partir do momento que acreditei ser possível levantar, peguei firme na mão de Deus e eis me aqui, defendendo uma comunidade de irmãos que tem tudo para ser feliz e santos, basta a gente pegar firme nas mãos de Deus. Precisamos vivenciar tudo aquilo que é ensinado no Evangelho, obedecer nossos superiores e pedir a Deus saúde aos nossos irmãos do Clero. Ao nosso Patriarca José Fernando para que possa viver muitos anos, na condução desta IVCM  que ora estamos também ajudando a se reerguer.

“Na liturgia Deus fala a seu povo. Cristo ainda anuncia o Evangelho. E o povo responde a Deus, ora com cânticos, ora com orações”. Pela Liturgia a Igreja celebra o mistério de seu Senhor “até que Ele venha” e até que “Deus seja tudo em todos” (1Cor 11,26;15,28). Irmanados no ideal de servir aos propósitos divinos, não nos deixemos abater pelos percalços naturais que a vida nos reserva como irmãos. Não existe outro caminho senão aquele que o Mestre está nos delineando neste momento de reflexões; quem se nega a seguir em diante, segure firme também a cruz do próprio testemunho que hora nos é oferecido. Muito lentamente estamos nos despertando para a verdade e não devemos esperar por uma adesão coletiva aos princípios libertadores que temos abraçado na Doutrina deixada por Francisco que revive os postulados cristãos para toda a humanidade; passados seu divino sacrifício entre os homens , o Senhor permanece na expectativa de que a semente plantada por suas mãos germine nos corações.

Não podemos nos desanimar. A escada para chegar-se lá é alta, é constituída de infinitos degraus; porém a cada passo, poderemos sentir a presença daquele que nos prometeu fazer companhia até a consumação dos séculos. Outrora e hoje as dificuldades são as mesmas das do tempo do jovem Francisco, hoje todavia, não podemos ignorar o rumo em que se faz mister perseverar. Obstáculos existem e existirão ao longo de nossa jornada, mas nada acontece por acaso, cada espinho é um estigma de Cristo em nossa vida.

Somos discípulos fraternos, devemos ser fiéis ao amor e à verdade tem se corporificado no Planeta, abrindo significativas clareiras na floresta dos nossos anseios. Quem não se ajuntar, com certeza se espalhará. Não há mais um só povo e uma só raça que possa protestar desconhecimento das lições do Evangelho. Se amarmos uns aos outros, nada haverá de se constituir em obstáculo na caminhada e a incerteza não nos deixará vacilar no cumprimento do dever em viver-se em comunidade.

Depois de Deus, é o amor a suprema força do Universo. Quem ama, serve e compreende, perdoa e renuncia, não diminui seu irmão em nada, pelo contrário o exalta, o capacita, rejubila-se pela oportunidade de se superar através do amor que dedica aos seus semelhantes. Quem ama, não teme as adversidades e não recua diante dos desafios. Quem ama, mesmo que ainda se situe nos primeiros degraus, lutando para desembaraçar o veneno que corre aos lábios, antecipa em si mesmo a alegria da vitória.

A criatura que ama integra-se com o Criador e, em sintonia com Ele, embora não sejamos mais que um singelo grão de areia na imensidão do deserto, temos que nos esforçar para nos aproximar da grandeza Divina na Glória da Criação como fez Francisco se tornando irmão do Sol, do Mar, do Lobo, da Lua, da Mãe Natureza. O único segredo da vida é o amor. O egoísmo, faz sofrer e desencanta. Aquele que esquece os seus semelhantes e os explora padece de profunda amnésia e, até que verdadeiramente se encontre, peregrina por longo tempo nas sinuosas estradas do sofrimento.

Na Terra tudo é transitório, o amor como disse São Francisco é o idioma universal e a senha que nos abrirá todas as portas. Concentremos na prática da caridade; as religiões que apenas enfatizam a necessidade de crer e que não conclamem os seus seguidores a serem bons e tolerantes, estão longe de aprender e de pregar o real sentido das palavras de Cristo. O religioso sincero é aquele que, em seu relacionamento com Deus e com sua irmandade, jamais excluiu o próximo, seja ele quem for. O fanatismo religioso é uma manifestação primitiva da fé. O que redime o homem são os seus atos, e não a sua aparência piedosa. Com a fé raciocinada, teremos nas mãos a abençoada força de abençoar o que de nossas mãos possam precisar.

Enfim, como bispo eleito, haveremos de trabalhar incansavelmente, e não vamos desconsiderar que a construção do Reino de Deus sobre a face da Terra depende de nossa edificação no íntimo de cada um de nós. Tudo passa e tão somente a experiência permanece. Mais cedo ou mais tarde todos nós haveremos de chegar ao termo da jornada que empreendemos de volta para Deus.

Que o Evangelho nos seja motivo de alegria. Que a criação seja o sorriso de Deus, constantemente estampado na face do Universo. Que a tristeza da crucificação seja superada pela alegria da ressurreição. Que a morte como disse Francisco seja o caminho para a vida eterna. Que as nossas mãos sejam estendidas uns para os outros e, sobretudo, que tenhamos paciência de nos suportar a ignorância que muitas vezes deixamos a desejar sem imaginar o sofrimento que podemos trazer a terceiros.

Sejamos firmes nesta Igreja da qual fomos recebidos de braços abertos, lembrando mais uma vez que somos pioneiros, que seremos lembrados no futuro, e que temos responsabilidades, pois seremos o exemplo de uma nova geração que ora se inicia com meu episcopado. Portanto a mensagem de Francisco é essa: Uni-vos, amai-vos e servi sempre – eis o lema para quem almeja um melhor aproveitamento do tempo, em qualquer situação em que se encontre, nas múltiplas dimensões em que a vida se manifesta.

Se desejamos viver uma comunidade de irmãos, aprendamos em primeiro plano a ser de fato irmãos na construção desta igreja fraterna e missionária na qual fazemos parte. Que o Senhor nos inspire e nos fortaleça, hoje e para todo o sempre. Obrigado Dom José Fernando de Faria, Paz e Bem.

Rev. Frei e Padre José Neilo Machado
OBS: Entrevista concedida em Março de 2019 Por ocasião de um Encontro realizado em Caldas/MG

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